15 outubro 2005

O Beijo

O beijo foi o último presente que me deu. Quente. Longo. Úmido. Não me lembro bem como começou. Estávamos conversando sobre o que faríamos com o nosso apartamento... se venderíamos; se um ficava com o imóvel e o outro com os carros. Não me lembro.

O beijo nasceu do nada. Não houve um olhar anterior; olhar que responde à dúvida do porvir. Não houve um toque leve de dedos. Ou um mexer de cabeça. No meio da frase, se pagaríamos ou não a empregada para continuar com a faxina no apartamento fechado, o beijo criou-se, existiu. E permaneceu por infinitos minutos. Eternos segundos. Em suspensão.

E o beijo terminou. E tentou-se continuar a conversa. Eu, sinceramente, não consegui. Ele tentando; eu transtornada. Estávamos nos separando, porra. O beijo. A separação. Confusa. Fitei-o sem saber o que fazer. Olhei para o chão. Teto. Abajur. Cortina. Janela. Praia. Fechei os olhos. Ele pediu para esquecer. Pegou as chaves em cima do sofá. Fechou a porta com cuidado para eu não sentir a sua falta. O vazio tomou conta da minha boca.

01 abril 2005

Deixe

Deixe-me bradar, aos quatro ventos que correm as montanhas
Deixe-me te beijar, correr a língua em todos os cantos

Por que me impede? Por que recusa?
Por que luta? Por que ganha?
Deixe, dê, perca!
Ou então, não mais lute sozinho
Façamos uma batalha
Uma guerra armada

Use sua boca, suas mãos
Usarei minha língua, minha unha
E então sim, poderemos lutar
Igualmente, sem ninguém ganhar.

Talvez até ganhe, um beijo,
Um aperto, um pouco mais de amor.
Talvez até ganhe, uma lambida
Um arranhão, um pouco de prazer.

Quero sentir
O pulsar forte
Teu coração junto ao meu
Num batida rítmica
Num arfar contínuo

Vou então olhar pela janela
E lembrar...
Observar a brisa nas árvores
E lembrar...

18 março 2005

Duelo

A lua iluminava seu corpo nu, pálido e quente, com seus pelos se eriçando ao movimento da brisa. Mil fios ligados ao universo me faziam chorar; minha fome era superior a minha vontade, e tudo me instigava a agir sem dó. Menos a beleza. Era um sonho, tudo tão igual ao meu sonho. O cheiro de eucalipto inundava o ar, e graciosamente ela pulou na água. As gotas que voaram prateadas, e seus cabelos fios de cobre. Meus ombros pesam, dependência vil deste ser. Seu olhar e o meu, se cruzam enfim. Seria ela uma vampira ou serei eu o imortal? Mesmo ali escondido, ela me entorpece com seu olhar. Mais uma vez estava diante de meu destino, com medo de seguir em frente. As nuvens cobriram o céu, criando assim trevas espessas e quase palpáveis; palpáveis de mais, com curvas? Trevas, com pelos? Trevas, com dentes? Destino cruel, me coloca frente a frente com meu predador, minha amada, minha isca, minha morte certa. Corro novamente, ainda não estou pronto para ela. O duelo seria muito doloroso ainda, enquanto corro ouço sua risada ecoando nas montanhas ao meu redor, sinto seu olhar me seguindo. Enquanto corro sinto meu cheiro se desprender de mim, penso nela saboreando meu medo. Enquanto corro esqueço da hora, de onde estou. Enquanto corro o sol nasce atrás de mim.

14 março 2005

Pesadelo pessoal

Um dia... como por acaso nos encontramos. Estava chovendo, e a água escorria pelo nariz formando gotas que te davam um ar de criança abandonada. Eu estaria espirrando em seu lugar.

O moletom cinza claro, estava escuro de tão ensopado. Seus braços circundavam o corpo magro, que tremia ligeiramente de frio. Não olhei para baixo, mas lembro do tênis azul dessamarrado, e da calça jeans larga demais para o corpo que cobria.

Tinha um guarda chuva em minhas mãos, que em algum momento caiu para trás. Não sei precisar quando, já que não posso precisar nem quando na história da minha vida isso aconteceu. Nunca esqueci como foi desenrolando diante dos meus olhos. Porém não sei quando foi, se é que foi.

Seus olhos eram verde escuro, e tinham o brilho mais negro que possa imaginar. Estagnei a sua frente, ridiculamente encantado. Seria um anjo caído que estava barrando a calçada? Um sorriso macabro surgiu em seus lábios, e os meus sonhos desmoronaram ali.

Deu um passo para o lado, me dando passagem. Os pacotes em minha mão escorregaram, indo de encontro ao chão.O guarda chuva suspenso em meus dedos moles, voaram com o vento acelerado, indo parar à beira-mar. Seu riso leve e sutil me atingia em cheio. Um soco no fígado atacado pelo almoço apressado.

Alguns passos, e saia do meu campo de visão. Ah, por que não te deixei dar estes derradeiros passos? Porque deixei o mar levar embora meu velho guarda chuva e corri atras de você? Não podia ter recolhido meus pertences antes?

Corri atrás de você, e te vi atravessar a rua. Te vi desviar das crianças que saiam da escola. Cabeça baixa, que só via os pés dos trausentes. A touca levantada, o cabelo escapando. O ônibus se aproximando. O som surdo do seu crânio contra o chão.

E vejo isso todas as noites, como uma velha música em alto volume no repeat. Todas as noites, toda a noite. Repetindo, repetindo...

09 março 2005

Flores

A testa poreja o suor do cansaço, cansaço dessa vida que lhe foi imposta, dessa vida que ninguém escolhe. Você é um dos escolhidos, agradeça pela oportunidade! disseram. O capacete pendurado no pescoço, botas apertadas, fedidas e mijadas. ‘Mija no pé, esquenta e laceia, você vai descobrir que é importante’. Não existe compaixão ali. Nem fome, frio, dor ou medo. É só carne. Prato cheio para as igrejas, que nos fazem crer num futuro depois da morte. Aqui não existe alma.

A bota marrom chapinha na lama molhada. Avermelhada. Uma gota de suor escorre pelas costeletas ruivas de terra. Besouros negros passam zunindo pelo seu ouvido. Não há tempo a perder. Uma missão foi passada há horas atrás e já deveria estar cumprida. No capacete, músicas que falam de amor. Não era belo, mas havia deixado um amor para trás. Seu amor seca. A poeira não deixou de cair. O pedaço de pano, não tem mais o perfume de rosas. Nem é macio.

O curso do vento muda. O cheiro de podridão domina o ar. Uma mão já rígida esbarra no tornozelo. Uma mão quente puxa o colete. Ele cai sobre uma barriga estufada. Gases da decomposição. Gritos de dor. Pontapés. Chutes. Socos. Rasgos. Uma lâmina fria corta a carne nua/crua/sua. Não há compaixão.

A lua no céu azul sobre a Terra. Ilumina os escombros de sua última guerra. Como que apoiada nos ombros do jovem. Cenas de destruição. Fogos de artifício cruzam o céu de estrelas. Uma criança reza.

O vestido cinza chumbo prende a bainha na grama seca. A barriga proeminente pulsa, ofensa a vida. Flores espalhadas pelo chão em contraste com a roupa preta dos oficiais. No seu túmulo, cravos e rosas. Tiros de canhão em homenagem ao bravo.

A vó

"Vem dar um beijo na sua vó, criança! Velhice não pega não..."

Era sempre essa a recepção da velha D. Neide. Vó bojuda, de cabelos muito brancos, olhos azuis e serelepes. Aquela pele fina, manchada, enrugada. As mãozinhas pequenas, com a velha aliançade casamento com meu avô. Tinha cheiro de farinha. Não água de colônia como as avósde meus amigos, mas de farinha de trigo, de tomate e de oregano. Nada como o macarrão da Mama para fazer meu domingo feliz! dizia meu pai. A casa cheirava a comida boa. Era a alegria dos primos, e dos vizinhos. Sempre tinha sorvete, bolo, pudim, torta. Casa da Vó enfim. Mas a velha morreu.

Ontem a noite. Voltamos todos juntos do enterro, chegamos na casa dela, nos espalhamos pelos velhos bancos, sofás e poltronas. Na mesinha de centro, comprada numa dessas lojas de cantor de sertanejo um último pedaço de bolo descansa. Os farelos ao redor do prato mostram como faz pouco tempo que aconteceu. Que a vida dali foi tirada. Crueldade, para que matar a velhinha fazedora de doces e bolos? Ela quase não andava mais! Minha prima viajou a noite toda, apenas para ver o corpo apertado no caixão. Pela janelinha do tampo. Caixão fechado é ridiculo não acham? Todos os velantes ao redor ficam querendo saber porque não está aberto o caixão. Não podia estar, simples.

Imagina só, se o caixão estivesse aberto. Teria tripa por todo lado. Aquela gosma nojenta e esverdeada que escorre das entranhas. Já atropelou um gato? Pois é, ela estava parecida. Um talho que vinha de cima do seio até o início das coxas. Bem aberto, coisa de amador. Não sei se o vermelho no tapete era do molho, ou do sangue. Lembro que na mão dela tinha um pau de macarrão. Morreu cozinhando, coisa de vó.

Home Sweet Home

"Nobre Lar Vende:
5 Suítes, um dormitório especial para crianças. Salão de Jogos, Festas e Piscina.Escritório, terraço e sala com lareira. Quintal amplo e arvorizado.Entre para conhecer. Venha morar bem."

- Mãe, quero essa!
- Essa daqui filho? Mas ela não é da cor que você gosta!
- Eu sei, mas ó, tem desenhinhos!
- Não sei se pai vai querer essa filho, você sabe como ele está trabalhando muito, e tem chego cansado..
- Ah mãe... o papai vai demorar ainda?
- Falei pra ele nos encontrar aqui, anjo. Deve estar chegando, está começando a escurecer...
- Lembra do parquinho mãe? Eu adorava lá! Podia brincar até depois que escurecia.... porque tivemos que sair de lá?
- Saimos porque o papai já não conseguia mais encontrar material, anjo. Se quiser, podemos passear por lá amanhã quando você acordar.
- Oba!

- Oi amor, oi meu principe! Como foi seu dia?
- Papai! Joguei bola, corri, até empinei pipa!!!
- Oi querido, demorou, o que houve?
- Foi dificil achar um lugar para guardar o carro. Você sabe, estes assaltos, esta violência... não quero perde-lo tão cedo.
- Pai, pai, pai olha só, eu quero essa! Eu consegui ler quase tudo, escuta:"Nobre Lar Vende5 Suítes, um do... do... do o quê pai?
- Dormitório, é igual a quarto. Mas é uma palavra diferente.
- Tá... um quarto especial para crianças....
- Então querido, ele está empolgado. Acha que consegue?
- Bem, vou tentar. Vá com ele para lá, te encontro em minutos.

Algumas horas depois, num telejornal matutino:

"Familia espancada até a morte em rua de bairro nobre. Um casal e uma criança de aproximadamente 8 anos foram encontrados esta manhã com faces irreconheciveis. A criança dormia enrolada em uma faixa de imobiliária do bairro, provavelmente recolhida de algum imóvel da redondeza. O carrinho de latinhas cheio, estava capotado. O homem, de aproximadamente 31 anos estava próximo a mulher, como se cobrindo o corpo dela. A criança dormia alguns metros além, em meio a algumas árvores. Acredita-se que os assassinos tenham atirado contra a criança dormindo, e a espancado após a morte, no caso instântanea. O delegado informou que não aceitará corpo mole, e quer a captura deste psicopata em questão de dias, mais informações no próximo bloco."

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Nomes, anúncios, e situações fictícias. Qualquer semelhança é mera coincidência.
Infelizmente, a família (e sua faixa de lona), pode ser encontrada em diversas esquinas da metrópole. Os assassinos nunca foram pegos, e foram esquecidos. Não esqueça você também.

Banda do Tomate

Estava sentada no banco de madeira clara do corredor, lendo um livro que não me lembro agora. Sempre gostei da cordialidade ao lidar com as pessoas, de dar bom dia, boa tarde, de sorrir. Faz a diferença.

Então desencanei da aula, e fui pro banco. Foi quando ela sentou do meu lado. Eu não estava disposta a conversar, queria passar logo pra próxima parte do livro. Ela começou a conversar comigo, me perguntar de como ia minha vida. Era uma fase difícil para mim, e eu já tinha feito alguns desabafos com ela. Mulher mais velha, experiente, ótima conselheira.

Desconversei um pouco, e tentei fazê-la ver que eu queria ler. Ela não percebeu. Algo nela me dizia que ela queria conversar dessa vez. Algo a dizer. Então desisti do livro e começamos a conversar, e ela me contou uma história mais ou menos assim...



“Eramos em 5 irmãos. Não é muito para a época, mas era muito pro salário do meu pai. Sete bocas para alimentar, com o dinheiro de caixeiro de uma cidade do interior com poucas cidades próximas. Papai era um homem sério, daqueles que você pedia a benção e ele só respondia depois que você beijava a mão. Não gostava de barulho, gritaria, de bagunça”.

Íamos para a escola, porém nosso caderno era em papel de pão. Lembro dos bancos corridos, do chão batido, do cheiro da flor que ficava na mesa da professora. O prefeito da cidade tinha um fusca preto, e o víamos sempre que ele passava pela escola.

Minha paixão era a enfermeira da cidade. Sempre com seu sapatinho branco fazendo toc toc nas calçadas. Um dia meu irmão ficou doente, e ela foi nos visitar. Minha mãe deu a ela um pedaço de bolo doce, e uma xícara de chá quente, pois ela tinha pego uma chuva danada.

É sobre minha mãe que quero te falar, Vê. Muitas vezes, escolhíamos entre arroz com feijão ou feijão com arroz. E um bife, ou ovo, ou uma salada fortificada. Porém, tinha ocasião que era arroz e arroz. E então, acontecia o milagre:

Minha mãe ia à feira, e comprava tomate. Enquanto estávamos na aula. Quando chegávamos em casa, todas as panelas, lençóis velhos, colheres, baldes, enfim, tudo que uma criança gostaria de brincar. Entravamos em casa, em silêncio, guardávamos as roupas engomadas de ir pra escola, os livros, e os sapatos.

Então voltávamos pro quintal. E fazíamos a festa. O cheiro de tomate inundava o ar, dava pra sentir da esquina de casa. E nascia a Banda do Tomate!

Quando começávamos a ‘bater o compasso’ minha mãe surgia! Sempre muito colorida, com um apito, rindo, brincando e cantando. A criançada vizinha se dependurava no nosso portão, e ficamos andando pela casa e quintal se divertindo. Quando meu pai chegava, trocávamos olhares, e era ordenadinho: todo mundo em filinha para pedir a benção. Quando ele passava, voltamos a nos regalar com o único dia que tínhamos direito a fazer bagunça! Eu era uma das menores, a quarta filha da casa.

Era minha irmã mais velha quem chamava eu e meus irmãos para entrar e comer. Comíamos conversando, falando da escola, das brincadeiras, das músicas que gostávamos de tocar com a Banda do Tomate. E meu pai ficava calado.

Cresci. Descobri que era um acordo tático da minha mãe com meu pai, de modo que nós, crianças, não nos incomodássemos com a falta de mistura para o jantar. Ele ficava em silêncio, e nós éramos crianças. Por uma noite. Continuei estudando, fiz enfermagem, e hoje faço junto com você cursinho, pois quero fazer medicina. Perdi a primeira aula hoje. Estava no velório de meu pai. Minha mãe já morreu há anos, mas não morreu sua lembrança.

É uma história triste Vê, de pobreza e fome. Mas é uma história de carinho. De força. De ser Mulher. Meu filho adora tomate. E pede sempre para comer tomate. Ele pede para montarmos a Banda, e eu monto com ele. Ficamos nós dois brincando, até meu marido chegar. Então ele vem, e brinca conosco”.



O sinal tocou, e eu nada pude dizer. Ela me olhou, sem lágrimas pela perda do pai. Pela lembrança doce e doída. Ela levantou, juntou as apostilas que tinham escorregado do seu colo, deu um meio sorriso, e entrou andando calmamente na sala. E eu fiquei ali.

Nada demais

"Você nunca tocou meus lábios e nunca profanou meu corpo. Após todo este tempo, eu continuo imaculada frente a sua natureza devassa, e ainda assim, podemos viver em harmonia".

Esta frase martelava em sua cabeça. Não tinha coragem de tocá-la, tão etérea, tão bela. Tão angelical. E ele lá, largado, no sofá, com um cálice já quebrado nos dedos.

Se levantou e foi até a janela, olhar a chuva fina que escorria pelo vidro. "Sou apenas uma. Você é apenas um. Mas você prefere assim. Sempre preferirá" Não sabia onde por os dedos, estava atrapalhado ainda com cálice, e agora, este corte no dedo. Não é muito profundo, é mais um daqueles cortezinhos bobos, que fazemos ao mexer com papel. A mão dela cai com um baque surdo. Pum. Pum pum. Ainda dá um daqueles pulinhos, de bola no chão. Só que ele não ouve. Está olhando o cortinho.

Se encosta contra o vidro, gelado. Quem visse da rua, veria um daqueles símbolos, de marcas americanas famosas. Daquelas que nós nunca sabemos pronunciar o nome. Ah, ela sabia. Ela sabia tudo. Menos como acalmá-lo. Escorrega o corpo, se senta na pedra da janela. Olhando o corte. Um filete de seiva escorre pelos dedos, pingando no dedo logo embaixo. Ele esfrega com o polegar, como se nada mais importasse. Vê as unhas, sujas. Imundas. Com uma casca horrível.


"Estou cansado, quero ir pra casa.
Lena me espera, acho que é febre. Tomara que não,
febre nele novamente não. Levante-se.
Por favor, se levante. Preciso ir pra casa!!!".


Começa a olhar a mão. Primeiro à direita. Vê as cicatrizes, marcas de cigarro. As unhas, desiguais. Na esquerda também. Tivesse ali uma lixa, as acertaria. Pra ninguém ver, mas as acertarias. Sorri. Ao ver a marca da mão. Uma pinta, triangular. Nas costas da mão. Nunca nasceu pêlo nela, ao contrário do que todos diziam. Que bom. Não gosta de pêlos.

Olha pela janela novamente, e vê do outro lado da praça um casal. Se beijando na chuva. Ele já viu este menino aqui outras vezes, acompanhado de uma outra menina. A que morreu, se não se engana.


"Quem sabe hoje, enfim me livrem deste martírio? Tantos outros loucos pra estar aqui, e eu, justo eu sou escolhido" A água, da chuva, escorre pela sua nuca, enregelando suas costas, e molhando seu nariz. Uma gota, duas gotas, três gotas... uma após a outra, pingam de seu nariz. Isso o enerva. Não agüenta mais. Não pode se mexer... não ainda.
Começa a se lembrar de tudo. Dela entrando, molhada. O vestidinho florido, colado ao corpo. Sensual. A tensão é palpável. Ele se excita, mas como sempre, sempre e sempre acontece quando a vê. Não pode se mexer. Não consegue articular palavras. Ela lhe lança um sorriso. Os olhos dele devem ter brilhado na hora. Se envergonha de tudo. Da mocinha, da criança que acaba de sair. Coitada, vestiu as roupas. Ficaram tão largas coitada! Ele se lembra. E teme que ela tenha visto o lenço, o simples lenço que ele a deu.
"Que loucura. Esperar ele levantar. Por que não posso já?
Agora? Ia ser tão bom. Se errasse, tudo bem.
Meu objetivo seria cumprido igualmente. Lena!!!".
Tira a faca da bota. Daquelas de acampamento. Limpa as unhas, e com os riscos da pedra tenta lixa-las. Não consegue. E se corta. Este, ao invés de linfa corre sangue. Ele pinga o sangue, na mão dela. Tão vermelho, numa pele tão alva. Contraste. Ele um idiota, um cretino, um homem. Ela, tão jovem e tola. Limpa a faca, cospe nela, pra tentar tirar a crosta que ficou. Se levanta, irá lavar mesmo. Dá o primeiro passo, vê a mão tão fina próxima de sua bota tão tosca. Desvia do braço, e cai.
"Finalmente! Agora posso ir ver eles. Agüenta Lena".
Uma gota, maior que as outras, escorre do nariz,
ele espirra na hora. "NÃÃÃÕOOO!!!".
Se vê cair, em câmera lenta. Os joelhos primeiro, se dobrando. Ouve o berro dela. Ao vê-lo empunhar a arma. Puxou o cão. Ela gritando. Ele rindo. Discutem como nunca discutiram antes. Ele agita o lenço. Aquele mesmo lencinho que deu à menina, coitada, ela chorava tanto. Ela vê o lenço em sua mão e se cala. Se senta no sofá. Ele não entende, como ela pegou o lenço novamente? Onde encontrou? Ela dá uma risadinha, como quando nós já sabemos o que a pessoa vai dizer. E lhe diz apenas: "Você nunca tocou meus lábios e nunca profanou meu corpo. Após todo este tempo, eu continuo imaculada frente a sua natureza devassa, e ainda assim, podemos viver em harmonia". O corpo caí, os braços bobos ao longo do tórax. O rosto, em algo macio.
E agora? Ele caiu, isso foi visto, mas será que caiu? Desce os três lances de escada. Escorregando e correndo. Atravessa a rua, quase é pego por um menino, menino mesmo, uns doze anos, de patins. Desviou a tempo, isto seria um atraso. Corre pelo beco, sobe as escadinhas. Ele pensa na ironia, a velhinha, coitada, sobe escadas mijadas. Ele, escadas de tijolinhos. Entra pela janela, esquecendo tudo o que foi ensinado. "Sim Capitão!" "Sim Senhor" está cansado dos capitães, coronéis, majores. Lena não pode mais com isso. "Vamos sair dessa, meu bem".Ela diz, sempre, toda noite. Menos em noites de febre.
A mão, também em algo macio. Macio e pegajoso. Sente que é a mão dela. Abre os olhos, e vê. Hipocrisia. Ele, que disse nunca mais querer vê-la, morre. Vendo os belos olhos castanhos da jovem, vendo nos olhos dela o brilho da adoração. Junta forças e gira o braço. Pega a mão dela, e aperta. Firme. Uma última lágrima corre em sua face. E pinga. No lencinho.
Está escuro, é o hall ainda. Anda pé ante pé. Vê entre os moveis, uma sandália. Uma autêntica azaléia. Ouve o barulho da sirene. "Ah, Meu Deus, que não seja. Proteja meu deus".Contorna a coluna, e vê. Dois corpos, inertes, estranhamente, ele está de mão dada com ela. Na face, alivio. Enfim juntos. Vira o corpo, e corre. Para longe de lá. Para junto dos seus. Para seu bem. Para seu menino. Sua febre. Suas escadas mijadas. Suas vizinhas velhas. Seus capitães, majores, coronéis. Corre de encontro à vida. Nota em sua mão um corte. Fininho. De onde corre uma seiva.

Quando ama

Quero ouvir o dedilhar deste violão, e sentir o amor por ti. Sentir a saudade, o vácuo da sua ausência. Sentir o corpo que se dobra, que se enrola, que escorrega para o chão do quarto, onde chorei um dia. O som toca alto, canto junto, te beijo junto. Me ama junto. Quero seu olhar, seu sorriso meigo e doce. Este daí, que guarda na manga e só mostra quando está só com o monitor. Ou quando ama. Quando me ama...

Lençóis de algodão, pois o bebê é manhoso e quer maciez. Pele limpa, lavada, sem mácula. A vista. O olhar devorador que enxerga. A pele branca, tão branca, sob suas unhas sujas. Com uma caneta bic qualquer, faz desenhos na pele dela. Tão branca! Um papel de pele. Uma pele de papel. Liga pontos com as pintas que esconde.

Esfrega a barba, rebarbas dos pelos mal aparados. 'Vamos fazer uma troca? me deixa liso, te deixo lisa. e lambemos.' A pele rosada da coxa torneada, irritada pelos arranhões vorazes. Calor que domina todo o ambiente, como se uma fogueira tivesse sido acesa ali, do lado do sofá.
A mesinha de madeira, negra, apenas mais um apoio pros corpos insaciáveis. Te quero. Quem sabe quanto já amamos? Nem nós... o suor escorre pelos nossos corpos, as mãos ainda afogueadas, arranham a coluna, vergões nos braços, apertões.

Um pouco de ferocidade. Tufão que passou por ali e transformou homem/mulher em fera/bicho. Nada que mude a essência. A delicadeza. Vem. Te quero. Beicinho. A cabeça molhada, sobre os seios ofegantes ainda. Os dedos que se enrodilham nos cabelos da nuca. São tão macios... e o carinho prevalece.



Te mando beijos.
Receba meu beijo como quiser. Fará sentido. Será sentido.

Sem soluços

Portão desenhado, tribais e brasões. Casa de rico. Piscina azul turquesa, bóia infantil jogada na beirada. Vidraças do chão ao teto de vidro com jateados de garças. Uma toalha cor de rosa displicentemente na cadeira. Sua saia cinza em contraste com o carpete florido, flores no seu túmulo, cravos e rosas. Não há compaixão. A mesa prata, colocada com arte no centro luxuoso do salão, com restos de um jantar para dois. Lágrimas escorrem do rosto maquiado, lágrimas doloridas. Sem soluços. Restos de arroz espalhados ao redor do pratinho do Mickey, tantas e tantas vezes aviãozinho. Muita pose e pouca comida. A chuva lá fora ainda mais forte, como a fome que devora.O ressonar suave da criança que dorme no sofá, ajeita o cobertor que cai, sempre carinhosamente. Franjinha desfiada. Tranças soltas. Continua sua procura. Porta branca. Cozinha, ninguém. Porta verde claro. Lavabo, torneira pingando. Porta desenhada. Cama de lápis, brinquedos, cheiro bom. Porta marrom. Músicas amadas repetindo no som. Porta Preta. Escritório, charutos e cigarros. Porta azul. Som de chuveiro por detrás, uma voz de barítono canta.
O fuzil no braço canta. A água no chão canta. A privada, engasga. Ela ri. Ele empalidece. A criança chora. A babá, morreu.

Ano Novo

A imensidão me envolve, o brilho da luz é o que me mostra onde é para cima, onde é para baixo. Estou em posição fetal. Não sei como terminei nessa posição. Me joguei, com vontade, querendo sentir o coice, mas antes de tudo começar eu já estava me protegendo. Sei que ela (e eles) me olham da areia. Querem saber até onde irei. Tenho coragemtá! Mais coragem do que vocês. Eu disse a ela ontem a noite que a amava loucamente. E elaapenas apertou minha mão. Hoje a noite sim. Durante o pipocar dos fogos. Receberei o grande prêmio. Um beijo doce de seus lábios rosados. Úmido e sensual como o caminhar dela. Pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. Preciso de ar. Essa é das fortes. Tenho certeza que me leva até bem pertinho daquelas crianças. Onde está o chão? Cacete! Estou mais fundodo que imaginei. Preciso sair daqui. A água está me puxando para mais longe. Ninguém está me vendo aqui?? Preciso de ajuda! SOCORRO!

Socorro! Não aguento mais essa dor... preciso urgentemente de um médico.. não sua anta, eu não estou me assustando com os barulhos... eu sei que deveria ser só daqui a 15 dias mas ele está com pressa! como assim você não tem nenhum carro para mandar? Que venham a pé! Eu preciso de um médico! Você não está entendendo... meu bebê vai nascer a qualquermomento!

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Que os ciclos de que são compostos nossas vidas, não se tornem grilhões. Saibamos ver o pretenso bom, e o temido mal que nos acontece com sabedoria suficiente para discernir. Não sabedoria dos grandes magos, padres, bruxas, avós, amigos de infância, e afins. Sabedoria de quem está aprendendo a caminhar, e leva a vida crente de que se cair, a areia é dura mas não o fim. Sejam felizes. É tudo o que importa. (E usem protetor solar!)

(Adeus!)

Estou incomodada
Não sei o que houve, hoje acordei bem
Bem mesmo sabe? Rindo pro vento... (adeus!)
Mas não estou tão bem mais.
Talvez tenha sido o almoço.
Talvez tenha sido o perfume.
Algumas vezes o cheiro de quem gostamos vem
Invade as narinas e traz pra memória aquele sorriso (adeus!)
Porque fui eu a trancar a porta?
Depois que todos sairam.
Não podia ter ficado aberta?

Fechar a porta. Depois que você entra. (adeus!)
Olha os móveis como quem faz carinho
São pedaços de mim.
Você está entrando no meu mundo agora.
Sabe quanto isso é importante? (adeus!)
Jogado no sofá, os pés sobre a mesinha de centro
Repara nos desenhos dos azulejos.
Reparo nos seus pelos.
Um beijo. Inesperado, juro!
Um macrocosmo compartilhado (adeus!)
Um microcosmo de existência
E agora... só as ondas da cortina...

... escrito com o peito arfando...
e tantos "adeus!", como se partissem de alguém que fica ou que parte, numa estação de trem ou num cais, onde a despedida é mais lenta...

Algumas horas

As pétalas eram ligeiramente amarelas, um creme brilhante, muito macias, excessivamente aconchegantes. Se pudesse construir paredes de uma casa com ela, seria como a casa de uma avó querida, sempre com cheiro do bolo favorito e com um sorriso orgulhoso.Uma peça de vidro transparente, com alguns desenhos gravados nela, algo simples. Recebia em cheio a luz que passava pela janela, e se iluminava, como o sorriso de uma criança que abraça o pai após dias sem vê-lo.A música baixinha, com um ritmo cadenciado, como as batidas de um coração. Trazia a lembrança uma tarde a beira mar, onde as palavras e os passos acompanhavam o peso da conversa.A cor de sua roupa, ligeiramente amarrotada, combinava com o céu do dia anterior.?Algumas culturas tem cores para felicidade e tristeza diferentes da nossa. Algumas pessoas reagem de forma diferente a esses sentimentos. Saiba respeitar.? Ela dissera uma vez.O carro está a poucos metros de onde todos estão. Formam um quase círculo, e esperam que ele se aproxime para fechar o ciclo. O mundo gira. A roda do caminhão girava.
- Adeus mamãe. Eu busco meu irmão hoje. Também te amo. Prometo que cuidarei dele pra você.Algumas horas mudam a vida.

Microcefalia

"Out here
There are no stars
Out here
Were stoned...
immaculate*"

Abraçados, observam os próprios reflexos no vidro. As luzes estão apagadas, apenas algumas lâmpadas de consolo iluminam parcamente a sala. O corredor é frio, com algumas lufadas de vento gelado e sem cheiro nenhum. Asséptico. Só sabem que estão na terra pelo toque da pele do outro. Ou talvez nem por isso sabem. Estão na lua. No céu. Mergulhando entre estrelas. Nas mesmas estrelas que os envolveram há tempos e tempos atrás. Onde valsaram, riram e se amaram. É a primeira vez que ela vê. É um pedaço daquele que ama. Uma extensão. Um ser totalmente diferente. Suspiros. Ele já esperava por isso. Mas não sabia que seria assim. Um serzinho tão lindo! E tão... grotesco. Será que eles estão pagando por algum pecado sem perdão? Ele nunca creu em nada, como pagaria, pagaria para quem? E se sair correndo agora? Deixar Tudo para trás, dane-se. Não... não conseguiria dormir sabendo que o filho seria como um cachorro na casa dela. A enfermeira pega no colo. A namorada vira o rosto. Ele estica os braços. Recebe a criança disforme. Será que ela saberá sorrir? Ele ainda consegue.

* Fora daqui
Não há estrelas
Fora daqui
Estamos loucos...
imaculados

Ilustre convidado

Penso em você com surrealismo de cores. Tintas úmidas, mãos sujas... quero me lambuzar. Lençois brancos, mãos azuis, pés verdes, costas pretas, ventres amarelos, peito vermelho, caso de amor. Como uma bandeira hasteada, colorida e manchada, a colcha no varal. No rádio toca um blues com os acordes acentuados pelo gelo do copo. Vódca. O incenso amadeirado queima, olhar de relance no espelho. Dentro de mim, pedaços de você. Sinto ainda na pele o calor de suas mãos. Seu hálito quente em minha nuca, arrepios. Suspiros e gemidos que reverberam nas paredes e batem em mim. Sua pele queimada em contraste com meus travesseiros. No ombro, a mancha roxa. Perdão, mordi. Visto uma camisa, mas não volto à varanda. Teu bote me prende. Mãos na nuca, bunda no colchão. Teu peso. Úmidas roçadas. Pega meu copo, um gole. Gelo entre dentes. Delicioso choque térmico. Seja ele em Kelvin ou Farenheit. Olhares lascivos, convites. Me seduz, me beija, me ama, me invade, me domina, me faz tremer. Me faz gritar. Apressados, vorazes, famintos. Força e carinho. Apertos e cafunés inesperados. Beliscões, tapas, impropérios. Do jeito que eu gosto. Te bebo, até a última gota. A burguesa em mim se arrepia, se choca. O único choque que me importa é o de nossas coxas. Sou amante. Sou amoras. Sou tua. Sou crua. Estou nua. Explosão. Vejo uma flor sobre o criado mudo. No aparador da sala, ficaram documentos, chaves, máscaras e abotuaduras. Copos vazios expalhados na cozinha. Ao lado da flor, meu copo de vódca. Já vazio, como eu. O som da água no chuveiro, momento idêntico. Me enrodilho em minhas pernas. Preguiça de levantar. Descabelada, languida, branca. Me permito dormir.

Me acorda com beijinhos, um sorriso e levanto. Pago o horário. Personal Sex. Pela varanda te vejo cumprimentar meu esposo. Buscou os filhos na escola. Hora de fazer o jantar.

... Às vezes é preciso
destravar as portas,
abrir todas as janelas,
destravar os cintos e decolar...

Para assistir a terra de luneta,
comer pipoca sentada no vazio,
escorregar pelas pontas das estrelas,
dançar no ventre das nuvens,
sonhar em outros planetas....

Às vezes é preciso ficar só...
com um papel e uma caneta...