O beijo foi o último presente que me deu. Quente. Longo. Úmido. Não me lembro bem como começou. Estávamos conversando sobre o que faríamos com o nosso apartamento... se venderíamos; se um ficava com o imóvel e o outro com os carros. Não me lembro.
O beijo nasceu do nada. Não houve um olhar anterior; olhar que responde à dúvida do porvir. Não houve um toque leve de dedos. Ou um mexer de cabeça. No meio da frase, se pagaríamos ou não a empregada para continuar com a faxina no apartamento fechado, o beijo criou-se, existiu. E permaneceu por infinitos minutos. Eternos segundos. Em suspensão.
E o beijo terminou. E tentou-se continuar a conversa. Eu, sinceramente, não consegui. Ele tentando; eu transtornada. Estávamos nos separando, porra. O beijo. A separação. Confusa. Fitei-o sem saber o que fazer. Olhei para o chão. Teto. Abajur. Cortina. Janela. Praia. Fechei os olhos. Ele pediu para esquecer. Pegou as chaves em cima do sofá. Fechou a porta com cuidado para eu não sentir a sua falta. O vazio tomou conta da minha boca.
15 outubro 2005
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